
Em face de algumas fotos apresentadas pelo fotógrafo Cratense Wilson Bernardo ( ou o objeto em si, ou a fotografia ), tomados como obras de arte, houve questionamento importante e pertinente em uma comparação do contestador Maurício Tavares ( ainda que sem o desejar ), ao urinol de Duchamp, ou outros objetos da Pop Art. Em tese, e pela história vivida no blog Cariricult, não sou de concordar com os conceitos do Maurício e temos lá as nossas discordâncias, mas reconheço que ele está bastante correto na sua última colocação acerca do "bigode da Mona Lisa", e devemos reconhecer que o processo da ARTE ( em maiúsculo ), é um processo dinâmico, de rupturas de conceitos ou a aglutinação dos mesmos. E quem for acrescentar um urinol ao museu hoje, bem como fazer uma foto da latinha de sopa Campbell´s passará ridículo, pois isso já foi feito.
Porém, reconhecer o dinamicismo em arte é uma coisa, e questionar ou criticar a arte de alguém, é outra coisa. A visão do artista, enquanto o agente que produz arte, pode ser muito diferente daquele que apenas aprecia, do crítico, e não se pode desmerecer alguém por exemplo, por mesmo hoje, compor uma Fuga a 4 vozes aos moldes de Bach, pois há outros fatores a se considerar além do deslocamento temporal. E não digo isso como espécie de defêsa do tradicionalismo, é bom que fique claro. Mesmo em música, essas características são também marcantes. Falou-se em Rolling Stones agora há pouco...

Nem Boulez, com toda a sua pompa e circunstance, que causou aquele alvoroço todo na primeira metade do século XX, influenciando o mundo inteiro, por um lado tomando a tocha que pertencia a Stravinsky, e por outro, como um vândalo, destruindo conceitualismos até de representantes da sua própria escola, ( que se rebelaria mais tarde ), pode ser hoje mais objeto de tanto espanto, ainda que alguns o creditem valores artísticos que eu ( IMHO ), não reconheço na sua obra.
Por outro lado, enquanto a europa vivia a ebulição do pós-modernismo, nunca se livrou totalmente das correntes impressionistas e conservadoras de uma Belle Epoque em chamas, de um Mallarmé, de um Claude Debussy, que são amiúde, os verdadeiros "modernistas", em qualquer caso. Aqueles que antes de Boulez, de Stravinsky, ou de Webern, já profetizaram a sonoridade do que viria a seguir, como o serialismo integral, o atonalismo, e o dodecafonismo.

O mundo não parou, e se em termos tecnológicos podemos usar a palavra convergência para definir os novos rumos, nas artes, penso que a tendência é exatamente o contrário: o fenômeno da divergência, da globalização e da pluralidade que todo esse caldeirão e o compartilhamento das aldeias globais nos proporcionou.
E aqui abro um parêntesis para alertar sobre o perigo que incorrem alguns quando do uso desses novos "artifícios tecnológicos" na arte, sobretudo em relação à perda de identidade, um fator tão intrínseco para definir o caráter artístico de uma obra. É o caso, por exemplo, que eu pude comprovar no topo da Chapada do Araripe, ao ver um grupo de garotos catadores de pequi tocando com uma bandinha de latas, músicas de Michael Jackson. Incoerência ?
E o que seria incoerência na arte contemporânea, afinal, diante do acima exposto da sobreposição das inúmeras escolas, similitudes e apropriações de conceitos ?
Voltemos ao caso da foto do ovo prestes a ser esmagado por uma prensa, de Wilson Bernardo.

Portanto, vida longa à pluralidade contextual, seja pela contestação ou pela agregação de valores. Já percebeu-se que nem de um nem de outro sobrevive a Arte Real. Aplausos aos "experimentalismos" daqueles que produzem. E o futuro, como afinal, tudo em arte, há de julgar os meritos e os deméritos daqueles que imbuídos do inevitável "talento", produzam obras para a eternidade.
De onde eu vejo, todos os contendores têm razão.
E a Arte, sempre será dinâmica, e mais arte se torna pela contestação, pelos questionamentos e pela quebra de paradigmas. Quem sabe, não estaremos diante de um "New Duchamp" ? O tempo dirá...
Dihelson Mendonça
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